Um hobby é uma atividade sem pressão por performance ou planejamento, algo que promove regeneração. "É algo que a pessoa faz porque gosta, não por obrigação, nem por ser produtivo. É pelo prazer e satisfação pessoal", explica Rodrigo Huguet, psiquiatra da Rede Mater Dei de Saúde.
"Uma vida focada apenas em trabalho leva ao estresse e ansiedade."
Marco Aurélio Maywald, 27, encontrou esse propósito na fotografia. O fascínio surgiu ao visitar uma exposição de fotos em preto e branco no Sesc anos atrás. Embora interessado, ele não tinha condições de comprar uma câmera digital e ficou anos apenas desejando.
Há cerca de cinco meses, encontrou uma câmera analógica acessível em uma feira de antiguidades e começou a fotografar. O processo inclui buscar filme, tirar fotos, esperar o filme acabar, revelar e aguardar dias pelo resultado, sem a certeza de como as fotos ficaram -o que exige atenção e paciência.
Fotografar contrasta com sua rotina como advogado, em que lida com investigações de corrupção e programas de integridade, marcados pela urgência e pelo uso intensivo de telas. "No meu trabalho, tudo é urgente, tudo é pra ontem. Fotografar me permite pausar a realidade naquele instante."
A fotografia despertou em Marco Aurélio o interesse por outras formas de expressão, como pintura e teatro. "Descobri um lado artístico em mim que eu não conhecia."
Engana-se quem pensa que um hobby precisa ser útil. O importante é reservar um tempo para si, sem a obrigação constante de produzir algo. Dá até pra ser medíocre.
A psicóloga Débora Genezini, coordenadora dos ambulatórios da Oncologia D"Or em São Paulo, diz que as atividades feitas por prazer contrastam com valores atuais, em que uma rotina cheia de afazeres virou sinônimo de competência e sucesso. "Todo excesso, seja para mais ou para menos, é insalubre."
Essa percepção pode causar ansiedade, insônia e desequilíbrio. Áurea Amaral, 50, sentiu isso na rotina atribulada do mercado corporativo, onde lidava com pressão por vendas e metas. "É mentalmente exaustivo."
Dois anos atrás, ela teve uma experiência positiva ao fazer uma leitura de tarot e resolveu comprar um baralho para aprender. Hoje, lê as cartas para si mesmo e pessoas próximas. "Para mulher é sempre mais pesado, porque não é só o trabalho, é toda a carga que a gente carrega. A gente precisa usar uma válvula de escape", diz.
Fonte: A Voz da Região \ Folhapress